Sísifo

Paulo tem 52 anos. Com dois filhos para criar, fez do cume da Cachoeira da Fumaça, situada na Chapada Diamantina/Bahia, no Vale do Capão, o seu ponto diário de trabalho. Com 340 metros de altura e extensão de 6 km, o percurso é realizado em duas horas e meia de caminhada devido aos 30 kilos da mercadoria, carregados num isopor. Pastel de palmito de jaca por 5 reais e suco de maracujá selvagem, mangaba e umbu-cajá por 4, são as delícias da terra, a serem oferecidas para os turistas que vem do mundo inteiro conhecer uma das regiões mais admiradas do Brasil. Devido ao peso da mercadoria o percurso segue lento, contundo com a prática do exercício diário o corpo já não padece. O esforço é grande devido ao relevo acentuado, mas a promessa de uma boa venda, juntamente com as cantorias no percurso ajudam o caminhar. A realidade de Paulo nos remete a Sísifo, personagem de um mito grego descrito num clássico de Albert Camus. Sísifo foi condenado pelos deuses a empurrar incessantemente uma pedra até o alto de uma montanha e de lá vê-la escorregar de novo à base para novamente iniciar sua saga, num ir e vir sem fim. Tal como na filosofia, queremos refletir sobre o absurdo e o mágico do cotidiano. Sobre pedras e esperanças.